28/02/2011

PERFORMANCE EM TÓQUIO

fotos: Carlos Sperber fev/2011.

Jeane Doucas realiza performance pelas ruas e metrôs de Tóquio.


A atriz e diretora, está realizando uma Residência Artística em Tóquio, para estudar Butoh e posteriormente montar e apresentar um solo, como exercício desta Residência.
Para a realização desta Residência Artística Jeane foi contemplada com uma bolsa da FUNARTE- Ministério da Cultura.
Jeane está desde Dezembro em Tóquio, onde permanecerá até Junho, mês no qual será apresentado o seu solo.
A atriz e diretora está frequentando aulas com o mestre de Butoh, Yoshito Ohno, filho de Kazuo Ohno, um dos bailarinos mais importantes do mundo, que morreu ano passado aos 103 anos. Jeane também freqüenta aulas com a Mestre Natsu Nakagima e no mês de Março fará aulas com integrantes do grupo Sankaijuku, grupo Daraikudakan e outros nomes de relevância do Butoh.


Jeane: "a performance foi uma colaboração com o fotógrafo Carlos Sperber e surgiu de um ímpeto, de uma vontade de experimentar e investigar algumas questões:
neste período em Tóquio percebi que será inevitável que minha criação sofra as influências de minha experiência aqui. Da minha percepção de um universo que é tão diverso; de uma cultura, de costumes e do cotidiano desta cidade, enfim.
A ultra-modernidade, explícita tanto na arquitetura, quanto na vestimenta dos jovens, me deu a impressão primeira, de que "vale tudo". Os japoneses não se incomodam, não se assutam, não ficam abismados, não esboçam reações quando vêem os jovens vestidos de maneiras tão estranhas ao nosso universo.
É um mundo da FANTASIA, em vários sentidos, e me estenderia muito aqui escrevendo sobre esse aspecto que tenho observado. (Fica para uma próxima postagem, talvez).
Como primeira investigação, resolvi verificar se "valia tudo" mesmo. Para isto, decidi criar um figurino bastante peculiar (como vocês podem ver nas fotos), que tivessem elementos "estranhos", mas ao mesmo tempo referenciado sobre o que observei nas ruas, como mistura de padrões, de cores e sobreposições.
A idéia da performance, foi primeiro, simplesmente circular pelas ruas e metrôs de Tóquio, como se "nada de anormal" estivesse acontecendo, para averiguar se
haveria algum tipo de reação.
Apesar dos japoneses serem muito discretos (como vocês podem observar no vídeo abaixo), a maioria reagiu de uma maneira ou de outra. Até mesmo os jovens "fantasiados" reagiram, como se NUNCA tivessem visto tal proposição de vestimenta.
O fato, é que (descobri isso por observação), os jovens "fantasiados", pertecem à "tribos" diversas, e que, pelo fato de serem "tribos", seguem padrões e condutas. No meu caso, não pertencia a tribo nenhuma e por isso o estranhamento.
A segunda proposição da performance, foi me utilizar de um corpo "extra-cotidiano", no caso, as referências que tenho apreendido do Butoh.
Aqui um fato interessante: nos momentos em que eu me portava cotidianamente, apenas andando, como se fosse meu modo usual de me vestir, as reações foram discretas e, muitas vezes, não houve reações. Mas quando eu modificava meu corpo, a energia, a densidade, desacelerava a velocidade dos gestos e passos; a reação das pessoas foi mais explícita. Como se eu tivesse "aberto" uma permissão para que me observassem. A minha presença era vista então como uma "performance" no sentido estrito do termo, porque no sentido lato já estava performando desde o momento de me vestir.
Nestes momentos, as pessoas se sentiam libertas para fruir, para fotografar, observar, rir, e tudo o que lhes dava direito.
Uma experiência ímpar, que teria muito mais relato. mas paro por aqui. Blogs teriam que ser sucintos.
Espero que tenham se divertido.
Apreciaria enormemente comentários".
video
Filmado por Carlos Sperber



7 comentários:

Brenda Villatoro disse...

Jeanee, incrível a percepção de permissão que voce descreve no momento em que transmuta o corpo, que modifica a energia, dilata os membros, enfim amplia os vetores capazes realmente de atingir àqueles que se sentem confortaveis para observar.
Muito bacana mesmo o experimento, e as fotos estão excelentes, dão vontade de ver e saber mais, mais maiss, estou acompnahando essa jornada.

Beijoooss saudosos,
Brenda Villatoro

Dalas disse...

O que eu achei mais interessante foi quando vc comentou sobre as reações das pessoas. Se simplesmente se veste diferente, induz a uma reação discreta daqueles que não possuem tribo, que se vestem "normalmente". E, além disso, provoca também os que têm tribo, que se vestem "diferente", mas que não a reconhecem no grupo. Quando mistura à vestimenta outrs elementos, como movimento do corpo, etc, choca ainda mais. Será que porque com isso vc se sobressai ainda mais a qualquer tribo existente por lá?... Mesmo introduzindo em sua performance algo tão comum para eles como o Butoh...
Super interessante.

Casa da Mãe Jeane disse...

Buenas Brenda. Você saberá de tudo tintim por tintim, qdo eu voltar. Bjão.

Dalas,na verdade o Butoh não é nada comum por aqui também. Eu também fiquei abismada quando conversava com as pessoas e falava a que vim e, elas simplesmente NUNCA tinham ouvido falar em Butoh. Apesar de Kazuo Ohno ser reconhecido mundialmente, pelo menos no meio dos bailarinos modernos e atores, os japas "comuns" não conhecem. Detalhe: o japa que o Carlos trabalhou conhece!
É que o Butoh, na verdade, é Avant-Garde, marginal...não é mainstream, sacou? Só pros iniciados....kkkkkk

SIMONE disse...

Salve Jeane!
Você aí "performenceando" e eu cá da Bahia vendo o povo e suas fantasias loucas de carnaval!
Muito interessante o trabalho e algumas reações das pessoas expostas nos olhares para a sua criação. Muito boa sorte e volte cheia de gás para trabalhar conosco! Abração. Simone Vieira

PPLopes disse...

Caríssima Jeane, maravilha ver essa sua performance!
Não sou uma "iniciada" nas artes teatrais, mas sempre gostei do elemento da interferência no cotidiano para busca de reações e provocação de mudanças. Nesse caso, de certa forma me espantou a sua explicação... não imaginava essa questão das tribos, mas a indiferença no metrô não me espantou.
É coisa de megalópole esse comportamento blasê, esse alheiamento quanto às atitudes permitidas ou não. O respeito (sic) à indiviidualidade do outro. Só de brincadeira, imaginei o que aconteceria caso sua performance fosse em Lavras... PRENDE ESSA LOUCA!!! KKK.

Um beijão, bom Butoh e agrardo ansiosa os próximos posts.

Priscila

Karla Yotoko disse...

Jeane, tô um tanto atrasada no comentário, mas fiquei pensando no que faria se tivesse alguém fantasiado no metrô e outra pessoa me filmando. Acho que teria a mesma reação que os japas (mesmo pq não sou muito diferente deles, e cada dia fico mais consciente disso). Posso apostar que minha reação seria diferente sem ninguém me filmando. Vocês fizeram o teste?

Beijo!

Casa da Mãe Jeane disse...

Priscila, brigada querida. Desculpe a Demora em responder..hibernando um pouco..
Karla, desculpe também a demora na resposta. Na verdade, os japas lá se comportam assim mesmo independente de estarem sendo filmados ou não. Não era sempre que o carlos estav com câmera a postos e eles não alteravam em nada..